Podia ter sido escrito para mim

"A verdade é que uma mulher de atitude é aquela que abriu mão. Abriu mesmo, sabes? Não, ela não se maquilha como antes, nem está sempre de salto. Libertou-se de qualquer relação afetiva com o seu cabelo. Definitivamente, não nasceram um para o outro. Curou-se da compulsão por etiquetas em roupas, sapatos, bolsas. Argh! O problema não eram os objetos, mas as etiquetas. Assim que ela as tirava, não os tinha com o mesmo prazer que os via. Agora ela está a salvo.

Abriu mão da postura imaculada, da cara amarrada. Passou a sorrir mais para estranhos, a fazer mais amigos e menos contatos. Abriu mão da regalia exposta, apaixonou-se pelo simples, pelo menos. Pelo dela, por ser ela. Um preço que quase ninguém quer pagar. Cansou-se de sorrisos plásticos. Se mulher direita é assim, ela é assado; Errada, contrariada. Ela é o oposto, o desgosto. Geralmente identificada como a louca. Não liguem. Louca fica-lhe bem, afinal.

Uma vez, ouviu de um colega que ela devia "assustar os homens com a sua maneira de ser", prontamente respondeu que selecionava os homens com a sua maneira. Ela diz palavrões e é escandalosa, conversa com o mundo e teima em ser o centro das atenções. Em termos de bebida, ela coloca muitos homens a um canto. Mas também sabe fazer outras coisas das quais eles se orgulhariam. Se toda a casa tem que ter um homem, ela dispôs-se a sê-lo desde cedo. E não é só isso: ela liga no dia seguinte, puxa conversa e, se lhe der na telha, também dá em cima. Paga a própria conta - e a dele - dá um jeito em qualquer mau humor, mas principalmente, mau olhado. Se há coisa com que não se preocupa nem um pouco é como esta sendo vista - ou falada.

De fato, encontrar alguém à sua altura é difícil. Não por ela, não a entendam mal. Mas por eles. Eles não querem uma mulher que domine, que os leve a sair com o seu grupo de amigas, que saia para beber uma cerveja sozinha, que não fique à espera vendo a novela enquanto eles estão com os amigos. O que eles querem é a submissa, a quietinha, a que tenha um passado que não a condene. O dela arde em chamas; ela é o diabo de saias.

A mulher de atitude é um desafio, dá trabalho. Os clichês não a convencem, é preciso ter essência. Dispensa compatibilidade de gostos, o que ela procura são planos que se casem. Se quiseres mantêm-la não a prendas, nem sequer os seus cordões estão atados. Se a vires partir não a pares, se for o que ela quer, ela vai voltar sem aviso prévio. Rejeita a premissa de carência afetiva, não se pode sentir falta do que nunca se teve. Ela não é reflexo, é ato. Não é vulgar, mas tem o sal que falta nas mulheres doces.

Já abriu mão daquela história de príncipe encantado, do homem certo, de opostos que se deveriam atrair. Tem um orgulho inenarrável de todas as conjecturas talhadas pela vida por amores roubados, por amizades perdidas, por dinheiro gasto. Ela é pesada, ainda traz no lombo o fardo das suas asas cortadas. Não se esquece da dor da noite para o dia, é preciso senti-la e vê-la partir. Não pode fingir que não viveu tudo o que já fez. Seria indelicado com todos os anos cicatrizados na pele como marcas de sol. Não apagaria o seu passado nem que pudesse. É dela, tão dela, quanto cada sorriso que guarda na lembrança de qualquer passo atravessado.

A verdade é que ela abriu mão. Abriu mesmo. Não, não se maquilha como antes, pois procura por quem não tenha medo de ver os seus olhos fartos. Nem sempre está de salto, já tem a cabeça na lua enquanto os seus pés saltitam pela rua. Ela dispensa um homem sem coragem. Antes uma vida só do que uma mentira a dois".

Revejo-me nele em cada parágrafo.

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