A hora da despedida


Alguém dizia "Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm forma do nosso corpo (...) É o tempo da travessia e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos". 

O dia 7 de maio de 2016 ficará marcado na minha história pessoal como o final de um ciclo, o final da vida académica e, acima de tudo, o final de algo que sempre fui: Estudante! As fitas que meses antes entreguei a familiares, professores, amigos e namorado, completamente vazias, haviam regressado com mensagens carregadas de emoção que, no momento da benção, todas ocupavam um lugar muito especial na minha pasta. Aquela pasta que ergui com tanto orgulho na cerimónia, um orgulho quase tão grande como aquele que tenho pelo curso que há quatro anos escolhi.

Só nesse momento me senti finalista. Embora este ano letivo não tenha tido uma única aula na faculdade, apenas apresentações de estágio, sentia-me uma completa estudante, apesar de todos os dias ter que me levantar para trabalhar e saber que já não estaria mais naquelas filas de cadeiras em frente a um quadro. Foi naquele dia em que a nostalgia bateu bem no fundo do coração e trouxe à tona momentos bons e menos bons de todo o meu percurso académico e pessoal, mas que valeram a pena. Porque se me fosse permitido devolvia hoje mesmo o traje só para voltar a ser caloira novamente.

Dizem que os amigos da universidade são para a vida e nisso eu tenho inteira esperança que seja verdade. Desde o primeiro dia em que ninguém sabia para o que ia, enquanto passávamos pelos portões da faculdade cheios de expetativas e de repente nos gritavam "olhos no chão besta", até este momento de erguer as pastas, nós mudámos. Nós e as nossas expetativas. Somos pessoas diferentes, o contacto com várias pessoas, culturas, aulas, professores e até o facto de a grande maioria dos estudantes viverem "sozinhos", fez-nos crescer. Pelo menos a mim fez, numa avaliação introspetiva eu sei que não sou a mesma pessoa de há quatro anos atrás. Fiz poucos amigos mas bons, e recordo-os em todos os momentos que vivi: nas enormes salas de aulas/ auditórios com exames/ frequências do arco da velha, quando "voluntariamente" oferecíamos os nossos braços para que eles pudessem treinar a colheita de sangue mesmo sabendo que a coisa podia correr mal, que estiveram presentes em jantares, noites de semanas académias, mas também em noites no Skype a estudar.

A universidade não é só aulas, só festas. Pôs-nos à prova, a nós, a nossa determinação, até as nossas amizades. Também foi aprender a separar a roupa por cores e aprender que não se devem colocar toalhas com outro tipo de roupa, foi aprender a fazer mais qualquer coisa do que arroz/massa com atum. Foi aprender a pagar as contas a tempo e horas, a gerir da melhor forma possível o dinheiro que tinha disponível para todo o mês e perceber que se não for eu a limpar a casa ninguém o faz por mim.

Agora, a uma semana e meia de terminar o último estágio e a menos de um mês para terminar toda a licenciatura, é tempo de ficarmos entregues (nós que terminaremos os cursos) a nós próprios, porque isto é só o início. Foram os melhores quatro anos de todo o meu percurso académico e, apesar de todas as incertezas quanto ao futuro, disso tenho a certeza absoluta.

Sem comentários:

Enviar um comentário