Livros | Queimada Viva


Souad nasceu mulher numa aldeia na Cisjordânia. Era um fardo para a família, num país onde as mulheres são fardos na família, onde o objetivo comum é casar, ser boa esposa, ter filhos homens, de preferência, ostentar a riqueza da família e ter uma boa reputação entre a vizinhança. Faz parte do quotidiano destas mulheres serem maltratadas e humilhadas, sem terem consciência da vida que levam, pois os seus direitos são-lhes completamente desconhecidos. Sendo impedidas de ter qualquer contacto com o mundo exterior, as barbaridades às quais estão sujeitas passam de geração em geração.

Numa frequentou uma escola, apenas os homens tinham esse direito, nem teve a infância que o seu irmão tivera, uma vez que desde criança que cuidava dos animais, participava nas atividades agrícolas e sofria constante violência vinda do pai. Nesta comunidade, as mulheres não tinham autorização para sair à rua, só se fossem acompanhadas por alguém mais velho e estavam proibidas de falar ou olhar diretamente para um homem. Tudo isto iria por em causa a honra da família e num país onde reina a "lei dos homens", a desonra por parte de uma mulher significaria a sua morte.

Souad é uma sobrevivente da cultura arcaica e opressora vivida na sua comunidade. Ainda jovem, apaixonou-se por um rapaz que vivia perto da sua casa e, após alguns encontros em segredo e com a promessa de casarem, Souad engravidou. Sendo o motivo da desonra da sua família, os pais encomendaram a sua morte ao seu cunhado, queimando-a viva. Felizmente sobreviveu graças à ajuda comunitária que a resgatou quase sem vida e a trouxe para a Europa para receber tratamento adequado.

Enquanto lia este livro, imaginei Souad sentada e escondida nas suas roupas largas. Iletrada, Souad conta esta história, a história da sua vida, em voz alta. E, para além de todos os sentimentos que ainda lhe estão à flor da pele, consegue narrar a sua infância e adolescência da forma mais crua que ela consegue. 

Queimada viva, tal como o último livro que falei aqui, não pode deixar de ser lido. Em pleno século XXI, o mundo ocidental não consegue acreditar que estas formas de vida ainda existam.

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